
A cartilagem articular é um tecido notável: mais liso que o gelo em termos de atrito, capaz de suportar cargas várias vezes o peso do corpo, milhões de vezes ao longo da vida. Ela tem, porém, uma limitação decisiva — não possui vasos sanguíneos. Sem irrigação, não há o processo inflamatório de reparo que cicatriza outros tecidos. Por isso uma lesão condral, uma vez instalada, praticamente não se resolve sozinha.
Essa distinção comanda todo o tratamento.
Uma área bem delimitada de cartilagem danificada, cercada por cartilagem saudável. Costuma aparecer em pacientes jovens, muitas vezes após trauma, torção ou luxação da patela. É a situação em que técnicas de reparo fazem sentido.
Desgaste espalhado, com toda a articulação envolvida. Não existe “borda saudável” para ancorar um reparo. Aqui o tratamento é o da artrose: exercício, controle de peso, medicação e, em casos avançados, osteotomia ou prótese.
A ressonância magnética é o exame principal, com sequências específicas para cartilagem. Ainda assim, ela costuma subestimar o tamanho real da lesão — a extensão definitiva muitas vezes só é conhecida durante a artroscopia. Radiografias com carga e panorâmica do membro entram para avaliar espaço articular e alinhamento, que influenciam diretamente a indicação.
Primeira linha em muitos casos: fortalecimento, ajuste de carga, controle de peso e, quando indicado, infiltrações. Lesões pequenas e assintomáticas podem simplesmente ser acompanhadas.
Perfurações no osso subcondral permitem que células da medula alcancem a lesão e formem um tecido de reparo. É uma técnica simples, feita por artroscopia, com bons resultados em lesões pequenas. A ressalva: o tecido formado é fibrocartilagem, mecanicamente inferior à cartilagem original, e o resultado tende a se deteriorar com o tempo em lesões maiores ou em pacientes de alta demanda.
Transferência de cilindros de cartilagem com osso, retirados de área de menor carga do próprio joelho (autólogo) ou de doador (aloenxerto), para preencher o defeito. Restaura cartilagem verdadeira, o que é uma vantagem importante, mas tem limitação de área disponível no caso autólogo.
Envolvem a implantação de matrizes ou de células cultivadas para regenerar o tecido. São procedimentos mais complexos, muitas vezes em dois tempos cirúrgicos, indicados em lesões maiores e em centros com estrutura específica.
Independentemente da técnica escolhida, os fatores que mais pesam são os mesmos:
Em outras palavras: tratar o buraco na cartilagem sem tratar o motivo pelo qual ele apareceu é resolver metade do problema.
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